Dia 08 de Abril de 2009: Reunião em Aveiro e Início da Aventura

Após a Travessia da Linha do Vouga, em 2007, tinha ficado no ar a ideia de explorarmos a Linha do Dão. Após várias tentativas não concretizadas de por lá pedalar finalmente conseguimos fazê-lo, juntando numa mesma aventura a Linha do Dão e a Linha do Vouga.

Vamos relatar aqui as aventuras e desventuras desta travessia em BTT das Linhas do Dão e Vouga.

A maior parte dos elementos reuniu-se na casa do Daniel (DJ), pelas 9h30 da manhã. A arrumação das bikes e do material na “pickup” demorou mais do que o previsto, pois tivemos que retirar a tampa que cobre a parte da carga. Temos que agradecer ao pai do DJ, que fez o grande favor de nos levar ao destino, permitindo, assim, a realização da actividade.

Por volta das 11h40 chegámos, finalmente, à estação de Santa Comba Dão (Calé, Vicente, Cardoso e DJ), onde o outro elemento, o Amaral, já nos esperava há mais de uma hora.

Procedemos à montagem dos alforges nas bikes e à preparação dos restantes equipamentos para dar início à travessia.

Ainda não tínhamos partido e já começavam os problemas. Verifiquei que o meu pneu da frente tinha falta de alguns pitons o que aumentava a possibilidade de rasgar ou furar, mas o pior descobriu o Amaral, ao ver uma racha no quadro da minha bicicleta na parte onde encaixa o espigão do selim.

Aí tudo se parecia complicar!

Mas nada a fazer, desistir estava fora de questão e havia que começar que depois logo se veria.

Partimos os cinco da estação de Santa Comba Dão.

Pelo estudo efectuado sabíamos que a ponte ferroviária que atravessa o Dão, a ponte de Treixedo, estava em ruínas, não permitindo a sua travessia, facto esse que nos fez circular por estrada, atravessando o Rio Dão para depois chegar à via do outro lado. Claro que para lá chegar, uma bela subida obrigou-nos a aquecer e a perceber o quanto pesavam os alforges.

Depois descemos acentuadamente para chegar ao leito da via, descida feita lentamente para evitar danificar os suportes dos alforges.

Chegados à antiga via, voltámos ligeiramente atrás para tirarmos a foto junto à ponte. Foi a altura ideal para comer qualquer coisa, pois já passava do meio-dia.

Retomámos a marcha sobre um caminho cheio de pedras afiadas que dificultavam o andamento e aumentavam o risco dos pneus rasgarem ou furarem.

Chegámos ao que resta da primeira estação, a de Treixedo. Durante uns quilómetros a via segue junto ao Rio Dão, que passa a Rio Dinha quando se torna mais estreito, tornando muito agradável o passeio, principalmente após terminarem, ou quase, as pedras na via.

Pouco depois de passar a estação surgiu o primeiro obstáculo que impõe algum respeito. A passagem por uma ponte metálica em estado duvidoso, a ponte de Nagozela.

Passar pela viga metálica a arrastar estas bikes largas e pesadas não é muito confortável, mas nesta ponte ainda o fizemos. Calmamente e com espírito de entreajuda, conseguimos passar as bikes de um lado para o outro.

Confesso que uma cordita presa num arnês nos daria mais confiança, mas lá conseguimos passar sem ela.

Continuámos a viagem, passando pelo estaleiro de umas grandes obras relacionadas com estradas e pontões que passarão sobre a via e depois pelas ruínas da estação de Tonda.

À frente, mais um desafio! Passar mais uma ponte de ferro, desta vez a ponte de Tinhela, bem mais sugestiva que a anterior, pelas marcas de degradação serem mais evidentes e o comprimento ser superior. Apesar de haver quem quisesse passar por cima imperou o bom senso e decidimos contorná-la.

Estávamos em Tondela e o desvio acabou por ser benéfico, porque acabámos a comer uns carapauzinhos, petingas fritas e umas bifanas bem regadas. Quando acabámos de saciar o apetite e nos preparávamos para partir surgiu o primeiro furo da jornada. O Amaral foi o primeiro contemplado.

O tempo começava a dar sinais de chuva iminente e sentia-se o frio a aumentar.

Resolvido o furo, seguimos viagem. Poucos quilómetros à frente voltámos à via passando pela estação de Tondela.

 

Dia 09 de Abril de 2009: Em Busca de Abrigo

Pouco depois de reiniciarmos a actividade e após a passagem na estação de Tondela coube ao DJ ser bafejado com a sorte de ter um furo.

Começava a chover e tudo indicava que iria ser forte.

Resolvido mais este problema, continuámos viagem. A chuva abrandou mas prometia uma noite em cheio, o que nos fez pensar como seria nas tendas, caso a coisa piorasse.

Foi aqui que o amigo Amaral nos salvou de fazermos natação nocturna. Caçador por “hobby” e conhecedor de meio Mundo, conseguiu o apoio do Clube de Caça e Pesca do Rio Pavia, em Parada de Gonta, a quem aproveitamos aqui para agradecer todo o apoio prestado.

Assim, pernoitámos na sede deste clube onde usufruímos do espaço, bem abrigados, com bar e tudo.

Preparámos um belo jantar com a alimentação que carregávamos nas bikes e bebemos umas belas cervejitas, vinho e uns whiskies para recuperar forças.

No final, jogámos um dominó para passar o tempo, antes do descanso da noite. E se foi bom, porque lá fora o vento soprava forte e a chuva era intensa e abundante.

 

Dia 10 de Abril de 2009: A Caminho de Viseu e Passagem Para a Linha do Vouga

De manhã o dia até estava bonito mas, ao longe, as nuvens ameaçavam aproximar-se.

Arrumado o material, após um primeiro pequeno-almoço, deixámos a sede do clube e dirigimo-nos à povoação, a fim de entregar a chave da mesma.

Aproveitámos para tomar o segundo pequeno-almoço, ao mesmo tempo que começava a chover.

Felizmente a chuva foi de pouca dura e, após terminarmos a refeição, lá seguimos viagem.

Estava frio e as pernas e corpos doridos do dia anterior, mas lá recomeçámos a pedalar. Em breve estávamos de novo na via e a seguir o nosso destino.

Passámos no primeiro túnel da nossa viagem e demos entrada na estação de Farminhão. Mais um monumento abandonado.

Mais à frente a via é interrompida por uma auto-estrada e tivemos que desviar para a estrada. Retomada a via, esta ainda apresentava os carris e as travessas sendo difícil de pedalar. Depois, numa garganta apertada e cheia de grandes pedras (seria interessante saber como lá foram parar estes blocos que me pareceram pertencer a pilares de pontes), a passagem era quase impossível.

Perdemos muito tempo a procurar uma passagem, que a pé seria relativamente fácil, mas com estas bicicletas quase impossível. Regressámos umas dezenas de metros atrás e apanhámos um trilho em mau estado e íngreme que nos levou a contornar o obstáculo, sem problemas de maior.

Chegámos à estação de Torredeita, que se encontra em bom estado de conservação e onde ainda resistem uma locomotiva a vapor em bom estado e uns vagões não muito bem tratados. Mais à frente, mais uma ponte sugestiva, a ponte de Mosteirinho. A sua passagem encontrava-se vedada até a peões, dada a degradação do passadiço em cimento.

Mais uma vez contornámos o obstáculo e pudemos observar a imponência e a altura desta ponte que, segundo informação dos locais, irá ser recuperada para servir a ciclovia que vem de Viseu.

Regressámos à via e até à estação de Figueiró a mesma nem sempre é ciclável, pelo que fomos alternando a via, com trilhos alternativos e estrada. Devido ao mato e às obras que decorriam na zona acabámos por não conseguir passar no segundo túnel do percurso.

Na ciclovia foi sempre a pedalar até ao local onde, em tempos, foi a estação de Viseu e onde, infelizmente, os vestígios desse facto já quase não existem, nem o antigo armazém de mercadorias, onde tirámos a fotografia no fim da “Travessia da Linha do Vouga” em 2007, existe.

Dava-se assim por terminada a parte da Linha do Dão.

Estava na hora de recuperar forças e nada melhor que umas iscas de fígado e um belo tinto (para alguns, os outros beberam sumo e água). Comemos bem e bebemos melhor, mas a etapa ainda estava a meio.

A subida da avenida até chegarmos à via foi dramática. As iscas deram várias voltas ao estômago, mas quando o vinho e o bagaço entraram em combustão, já nada nos parou. E lá seguimos, agora pela Linha do Vouga.

Atravessámos (alguns) o esgoto em Abraveses e lá fomos passando pelas estações de Moselos, Bodiosa, apeadeiro de São Miguel do Mato e estação de Moçâmedes. O tempo ameaçava chover e por momentos ainda caíram uns pingos fortes.

Uns quilómetros mais à frente passámos sobre a ponte ferroviária e entrámos na estação de São Pedro do Sul.

O Amaral aparentava dificuldades em respirar e sintomas gripais. Aliado ao tempo, que mais uma vez ameaçava chuva forte, decidimos pernoitar na Pousada da Juventude das Termas de São Pedro do Sul.

Mais uma vez o bom senso imperou.

Arranjados os quartos e tomado o primeiro banho da travessia, lá vestimos os fatinhos de cerimónia e fomos comer uma dobradinha e beber umas cervejinhas.

Depois ainda saímos para beber um café e ver as modas, mas regressámos para um dominó, jogado com pouca vontade e entusiasmo.

Estava na hora da deita, que o corpo estava cansado!

 

11 de Abril de 2009: Das Termas de São Pedro do Sul a Sernada do Vouga

Acordámos bem-dispostos e o Amaral parecia ter recuperado da gripe, pelo menos o suficiente para se aguentar até Sernada do Vouga.

Tomado o pequeno-almoço, demos início à última etapa com a foto da praxe em frente à estação das Termas de São Pedro do Sul.

O dia estava frio, excepto para o DJ que continuou a viagem de manga curta, e lá fomos pedalando sem grandes acontecimentos, passando pelas estações de Vouzela, Oliveira de Frades até Pinheiro de Lafões, onde aproveitámos para comer umas sandes de queijo e presunto no café do posto de abastecimento de combustíveis.

Continuámos ao longo da via passando pelos vários túneis existentes e pelas estações de São Vicente, Ribeiradio e Arcozelo das Maias, entre outros apeadeiros de menor importância. Perto de Cedrim o último furo da jornada. Coube, desta vez, ao Cardoso a sorte.

Daí a Paradela do Vouga foi rápido e seguimos pela ciclovia até à Foz.

Entre o velho trilho do comboio e a estrada passámos pelo Carvoeiro e chegámos à estação de Sernada do Vouga.

Na estação esperavam-nos as esposas e a minha filha para nos recolherem. Como não podia deixar de ser, ainda aproveitámos para aconchegar o estômago no bar da estação, que isto de andar de bicicleta abre muito o apetite!

Após os cerca de 129 Km de vias-férreas extintas e de três dias de bom convívio, bons trilhos e bons momentos, demos por finalizada mais uma boa aventura.

Mais uma excelente actividade, onde não faltaram excelentes momentos de convívio, de belas paisagens e de trilhos para todos os gostos.
Terminou assim em grande a Travessia em BTT das extintas vias férreas do Dão e Vouga.
Aproveito aqui para agradecer o apoio prestado pelo Clube de Caça e Pesca do Rio Pavia (Parada de Gonta) pelo apoio prestado na pernoita do primeiro dia.

Esta aventura será depois inserida na página referente à BTT nas Linhas Ferroviárias Extintas, com os mapas do trajecto, etc.

 

Alberto Calé

 

Galeria Fotográfica:

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