1 de Setembro de 2010: A caminho de Negreira

Já com alguns quilómetros nas pernas, uma vez que vínhamos do Caminho Inglês, entrámos na Praça do Obradoiro junto à Catedral de Santiago de Compostela. Decidimos carimbar as credenciais e rumar ao Caminho de Finisterra.

Obtidas as informações necessárias, em Santiago de Compostela, partimos na direcção de Negreira. Tomámos a decisão de seguir o caminho até Muxía e daí derivar para Finisterra. Este caminho é comum até à povoação de Hospital e daí bifurca para Finisterra ou para Muxía.

Por sugestão de um peregrino italiano optámos por ir primeiro a Muxía que, segundo ele, era mais bonito que Finisterra.

A etapa estava a ser longa, dado que logo pela manhã tínhamos partido de Bruma, ainda no Caminho Inglês, passado por Santiago de Compostela e agora seguíamos na direcção de Negreira, onde pretendíamos passar a noite no albergue local.

Depois de nos termos abastecido com umas frutas e sumos para a jornada, iniciámos o percurso. A primeira fase é fantástica. Um trilho técnico entre árvores, com bastante pedra e raízes a dificultar o andamento. Na fase inicial algo ascendente mas depois em descida acentuada a obrigar-nos a algum equilibrismo sobre as rodas. Constantemente a travar, lá fomos descendo muito lentamente até chegarmos a uma estrada.

Passados 11 km chegámos àquela que foi a longa e árdua subida do dia. Também entre árvores, o trilho evoluiu de forma ascendente, por vezes com forte declive, obrigando-nos a intenso esforço para vencer a subida. Ao todo foram cerca de 4 km de esforço contínuo, sob forte calor, até o trilho acabar numa estrada.

Parámos num café para matar a sede e conversar um pouco sobre o caminho.

Retomado o andamento passámos numa povoação lindíssima, Ponte Maceira, passando sobre a sua ponte datada do século XIV e sobre o Rio Tambre. Belíssima esta vila, com o rio a correr em pequenas cascatas e com moinhos antigos e velhas casas senhoriais.

Poucos quilómetros depois estávamos em Negreira e no seu albergue, cumprindo assim uma etapa de 60 Km (39 Km de Bruma a Santiago e 19 Km de Santiago a Negreira, mais as voltas em Santiago).

Tratámos dos aspectos rotineiros, banhos e lavagem das roupas, e fomos às compras e jantar. Jantámos num restaurante cujos donos, ele de origem inglesa mas há muitos anos na Galiza e a esposa natural de Negreira, nos trataram muito bem e onde comemos e bebemos ainda melhor.

Aqui a bebida eleita foi a cidra à pressão.

Após o farto jantar fomos visitar o centro histórico, tendo depois regressado ao albergue. O dia começava a ficar cinzento e prometia chuva.

 

2 de Setembro de 2010: De Negreira a Muxía

Saímos cedo do albergue e o tempo estava encoberto e muito húmido. Tinha chovido a noite toda e o nevoeiro baixo, que se verificava, tornava a manhã bastante fresca. A subida inicial ajudou-nos logo a aquecer.

Não sei bem porquê mas parece que todas as etapas começam a subir e os albergues ficam quase todos no final das povoações e na zona mais alta.

Durante esta fase inicial um betetista brasileiro acompanhou-nos na viagem. Dirigia-se a Finisterra.

Ao passarmos em Olveiroa, localidade com albergue, fomos carimbar as credenciais de peregrino e aproveitámos para comer uns enormes “bocadillos” num café próximo. Aproveitámos ainda para descansar um pouco antes de retomarmos a jornada.

Após saciada a fome e retemperadas as forças partimos de Olveiroa voltando a encontrar o brasileiro. O caminho foi decorrendo calmamente começando novamente a subir pouco depois da saída da povoação. Depois de várias subidas, acabámos por deixar o nosso companheiro de ocasião para trás, acabando por lhe perder o rasto.

Com a chegada a Hospital aparecem os sinais de separação dos caminhos. Para um lado Finisterra, para o outro Muxía, que era o nosso destino. Assim seguimos na direcção desta vila.

Surgiu então um sinal de “caminho provisório”, indicando que o trilho estava impedido por motivos de obras. As indicações provisórias desapareceram e acabámos um pouco desorientados. Entre palpites e perguntas a populares, chegámos à estrada principal que liga a Muxía. Decidimos seguir a mesma até à povoação.

As pernas acusavam o esforço e já não apetecia pedalar muito mais. Já perto de Muxía apareceram de novo as indicações do caminho mas resolvemos ignorá-las seguindo directamente pela estrada principal até à povoação. Nesta etapa percorremos 63 Km.

Realmente a entrada na vila com as praias, o mar à vista e os cabos rochosos ao longe é magnífica e vale uma visita.

Fomos directos ao albergue, que mais uma vez ficava no topo de uma rua íngreme, e tomámos um bom banho. Este albergue é grande e espaçoso e como pudemos apurar, provavelmente, muito menos frequentado do que o de Finisterra. Não teve mais de 10 peregrinos lá alojados durante a noite.

Saímos para visitar a vila, percorrendo as suas ruelas e visitando os seus monumentos, em especial o Santuário de Nossa Senhora da Barca, uma magnífica igreja em pedra quase sobre as rochas, onde o mar bate ruidosamente. Carimbámos a credencial e recebemos a Muxiana (documento comprovativo da ida em peregrinação a Muxía).

Depois fomos comer uns pimentos de Padrón e pulpo à galega acompanhado de cerveja, cidra, vinho verde e chopitos.

Quando saímos do restaurante estávamos ambos muito bem tratados, de tal forma que nos perdemos um do outro. Só nos reencontrámos já perto do albergue, onde mal caímos na cama, adormecemos.

 

3 de Setembro de 2010: Ligação Muxía-Finisterra

Era o último dia da nossa aventura e para tentarmos chegar ainda nesse dia a Portugal, decidimos sair ainda de noite.

Pedalámos devagar, sob a luz dos frontais, em busca das indicações do caminho. Lá as fomos encontrando e após 3 Km iniciámos a longa subida ao Monte Facho.

Depois descemos durante vários quilómetros até chegarmos à Ria de Lires, cujo braço do rio que a forma teve que ser atravessado com água por cima dos joelhos sob o olhar curioso dos trabalhadores que lá estavam na construção da ponte que, no futuro, servirá para transpor o rio.

Após a subida na outra margem fomos ao café carimbar a credencial (é obrigatório carimbar em Lires a credencial sob pena de não se receber a Fisterrana), e acabámos por comer e beber qualquer coisa.

Seguimos então viagem, ora por estradas secundárias, ora por velhos trilhos. Num deles o Amaral ao colocar a roda sobre uma pedra solta acabou por cair. Nada de grave, apenas umas nódoas negras e uns arranhões.

Cruzámos com um betetista espanhol e poucos peregrinos estrangeiros a pé que se dirigiam em sentido contrário e acabámos por chegar a Finisterra bastante cedo.

O albergue provisório ainda estava encerrado pelo que, não nos era possível carimbar as cadernetas antes das 13 horas. Isso praticamente nos impossibilitaria de chegar a Portugal ainda nesse dia. Paciência, nada havia a fazer porque queríamos mesmo obter a Fisterrana.

Pedimos a um pescador, que cozia as redes de pesca, se podíamos mudar de roupa na sua barraca e com a sua autorização assim o fizemos. Depois fomos comer uma sopa de marisco e umas amêijoas, que a zona é também conhecida pelos seus mariscos.

Acabada a refeição, passámos no albergue provisório para carimbar as credenciais e obter a Fisterrana.

Dirigimo-nos à paragem de autocarro onde desmontámos as bicicletas, voltando a ensacá-las e apanhámos o primeiro autocarro para Santiago de Compostela.

Este percorreu toda a costa durante três longas horas, passando durante o percurso por lugares bem aprazíveis, acabando por nos deixar perto da estação de Santiago. O comboio para Vigo estava lotado pelo que tivemos que apanhar o seguinte, jantando e dormindo depois nessa cidade.

O regresso a Portugal só foi possível na manhã do dia seguinte.

 

Alberto Calé

 

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