
Na segunda metade do século XIX começam a fazer-se sentir em Portugal os primeiros sinais da industrialização e, com eles, toda uma nova dinâmica de transformação do país que se encontrava, até então, num imobilismo persistente e preocupante.
As inovações técnicas desenvolvidas pelos físicos François Cugnot e James Watt acabariam por ser adoptadas nas obsoletas fábricas.
O aproveitamento da força elástica do vapor de água aplicado à indústria, veio substituir o trabalho muscular pela mecanização.
Nessa época renascia uma nova dinâmica nos centros urbanos de maior dimensão e localizados no litoral porque, para além das disponibilidades financeiras se concentrarem nestas paragens, era nestes que existia um mercado local considerável, ao qual se juntaria outro, muito mais vasto, facultado pelo contacto que o mar ou os rios navegáveis, permitindo mais facilmente o intercâmbio comercial com as regiões mais longínquas.
As novas tecnologias foram responsáveis por um aumento da capacidade produtiva dos centros fabris do litoral, motivando um súbito empolamento económico em relação às regiões mais periféricas.
A necessidade de expandir o mercado para os bens industriais começou a ser satisfeita pela introdução do Caminho-de-Ferro onde, pela primeira vez, se aplicou a tracção a vapor para a locomoção de veículos sobre carris.
Irrompendo através de regiões remotas ou decalcando rotas tradicionais, é à ferrovia que se deve a constituição de um mercado à escala nacional e, em alguns casos, até mesmo internacional, pois o novo modo de transporte conseguiu, com a redução das distâncias-tempo, transportar as mercadorias a custos reduzidos.
É nesta perspectiva que se enquadra a origem do Caminho-de-Ferro em Portugal e, particularmente, a construção da Linha-férrea do Vale do Douro.
Com a proposta feita pelo Governo português às Câmaras Municipais, em 1867, para a construção das linhas Porto a Braga, Braga à fronteira do Minho e do Porto ao Pinhão, iniciava-se o processo de edificação do Caminho-de-Ferro a Norte do Rio Douro.
A bitola ibérica de 1674 mm estava já perfeitamente implantada no território, até mesmo antes da via-férrea entre Lisboa e Gaia ter sido concluída em 1864.
Os primeiros trabalhos de construção do Caminho-de-Ferro a Norte do Douro iniciaram-se com a Linha do Minho, numa cerimónia solene ocorrida a 8 de Julho de 1872.
São formalmente abertos à exploração pública os primeiros troços da ferrovia a Norte do Douro que, na época, não possuíam ainda qualquer ligação com o Sul do país.
Das imediações de Campanhã até Ermesinde, o leito da ferrovia seria comum ao do Vale do Douro, numa extensão de nove quilómetros.
A 20 de Maio de 1875 é formalmente aberto à exploração pública o troço de Caminho-de-Ferro que ligava Campanhã a Ermesinde e a 30 de Julho do mesmo ano o troço Ermesinde - Penafiel.
Mas as dificuldades na construção da Linha do Douro ainda estavam no início. À medida que se ia avançando para Leste o acidentado terreno por onde passaria a ferrovia tornava-se num obstáculo difícil de transpor.
Os montes sobranceiros foram esventrados pelos operários à força das picaretas e da dinamite, as pontes e os túneis a erguerem-se continuadamente, quando, pontualmente, se atravessava um afluente do grande rio ou um monte de grandes dimensões.
O importante entreposto comercial que já era, na época, a Régua, passou a ser servido por via-férrea a partir de 15 de Julho de 1879 e a importante localidade do Pinhão, em 1 de Junho de 1880.
O troço final até à fronteira foi decretado por lei em 23 de Julho de 1883, ao mesmo tempo que se reuniam capitais para a construção, em território espanhol, dum troço que, encaminhando-se para o Vale do Douro, permitia a continuidade do Caminho-de-Ferro, colocando-o em contacto com os planaltos interiores de Castela, de Barca d’Alva a La Fregeneda, e daí alcançando facilmente Salamanca e Madrid.
Ambas as linhas, a do Douro e a Linha Internacional de Barca d’Alva a La Fregeneda e a Salamanca, encontrar-se-iam em Barca d'Alva, nas proximidades da confluência dos rios Águeda e Douro, atravessando-se o primeiro através duma ponte internacional.
Do lado português inaugurou-se o troço Pinhão - Tua, em 1 de Setembro de 1883, e o troço Tua - Pocinho, em 10 de Janeiro de 1887, passando a via-férrea neste troço a localizar-se na margem esquerda do Douro, após atravessar uma ponte metálica no lugar de Ferradosa.
Em apenas 17 quilómetros construíram-se, com capitais portugueses, treze grandes pontes metálicas e numerosos túneis, para que se estabelecesse entre o Porto e a restante Europa a mais directa via terrestre que existiu até hoje.
A 8 de Dezembro de 1887, estava concluído o Caminho-de-Ferro, desde a bifurcação de Salamanca até à Ponte Internacional do Rio Águeda.
08 de Julho de 1873 - Início da construção da Linha do Douro;
29 de Julho de 1875 - Inauguração do troço Ermesinde - Penafiel;
20 de Dezembro de 1875 - Inauguração do troço Penafiel - Caíde;
15 de Setembro de 1878 - Inauguração do troço Caíde - Juncal;
15 de Junho de 1879 - Inauguração do troço Juncal - Peso da Régua;
04 de Abril de 1880 - Inauguração do troço Peso da Régua - Ferrão;
01 de Junho de 1880 - Inauguração do troço Ferrão - Pinhão;
01 de Setembro de 1883 - Inauguração do troço Pinhão - Tua;
01 de Janeiro de 1985 - Encerramento do troço Boadilla (Espanha) - Barca d'Alva;
10 de Janeiro de 1887 - Inauguração do troço Tua - Pocinho;
05 de Maio de 1887 - Inauguração do troço Pocinho - Côa;
09 de Dezembro de 1887 - Inauguração do troço Côa - Barca d'Alva - Ponte Internacional;
31 de Dezembro de 1987 - Encerramento do troço Pocinho - Barca d'Alva.