ALDEIAS HISTÓRICAS DE PORTUGAL

- Trancoso -

Invasões Francesas

O povoamento em Trancoso terá começado no século XIX a.C.. A comprovar esta afirmação é a existência de um primitivo castro pastoril, posteriormente defensivo, situado no mesmo local onde, mais tarde, se havia de erguer o castelo. Em 301 a. C. chegam os invasores Romanos que aproveitam e ampliam o castro, dada a sua posição estratégica, o que lhes permitiu uma permanência bastante demorada neste local, até ao ano 409 da nossa era (século V a.C.).


Anteriores aos Romanos estiveram os Cartagineses em Trancoso que aí permaneceram durante 300 anos. Seguiram-se então os Romanos e, nesta altura, fizeram-se grandes obras.


Existem 2 hipóteses sobre as origens de Trancoso: dos Túrdulos ou de um enviado da Etiópia e do Egipto, de seu nome Tarracon. Da segunda hipótese terá resultado o nome de Trancoso: "Tarracon" – "Taroncon" – Trancoso.


Outros comentam que o nome de Trancoso terá resultado do vocábulo arcaico Troncoso, pois o local possuia abundantes bosques (Trancoso, nos seus primórdios, estava rodeada de densas florestas e ainda hoje é viveiro de árvores de grande porte). O nome só aparece documentado pela primeira vez no século X no testamento de D. Chamoa (ou D. Flâmula ou D. Chama), filha do conde D. Rodrigo, com doação do castelo e dos bens que aqui detinha, uma vez que estava na posse de toda a região a sul do Douro, herdada em 960 d.C..


Casamento de D. Dinis com D. Isabel de Aragão

O castelo de Trancoso, como muitos outros castelos vizinhos, é libertado do poder dos Árabes, em 1059, após várias vicissitudes e durante as lutas entre estes e os Cristãos, comandados por D. Fernando I de Leão, o Magno.


Por Bula de 8 de Setembro de 1148, o Papa Eugénio III confirma ao Arcebispo de Braga, D. João Peculiar, a posse, entre outras terras, do território de Trancoso.


D. Afonso Henriques derrota uma nova invasão Árabe e reconquista definitivamente o castelo de Trancoso, em 1160, que recebe as mais importantes obras até então, prosseguidas por D. Sancho I, após a morte de seu pai. Pertenceu à Ordem do Templo, pelo que ficou conhecido por castelo dos Templários.


O alcaide de Trancoso toma parte no célebre combate de Ervas Tenras contra os Leoneses, no ano de 1198.


No século XIII, Trancoso começa a ter uma maior importância que lhe vinha desde o tempo de D. Afonso Henriques, para quem a sua conquista representava uma acção fundamental para a fixação do território até aí subtraído aos Mouros, atribuindo o direito de foral à dita terra, com todos os privilégios e regalias. Deste documento ignora-se a data, mas é em 1217 que D. Afonso II, neto daquele monarca, também por carta régia, confirma tais privilégios e regalias. Tornara-se, então, num local de intensa actividade comercial, por força da periódica reunião de feirantes, de que iria resultar, ainda nesse século, por decisão de D. Afonso III, a criação da sua feira franca.


Em 1270, D. Afonso III cede por 600 libras anuais os seus direitos sobre Trancoso, demonstrando, com evidência, o valor já assumido pela povoação.


Batalha entre Portugal e Castela

É com a escolha de Trancoso para a celebração do seu casamento com D. Isabel de Aragão, que D. Dinis confirmará a importância assumida por esta terra na era de Duzentos. Depois do famoso enlace em 1282, jamais a Vila de Trancoso deixou de crescer em prestígio e grandeza. É o próprio rei quem vai lançar as bases do grande povoado em que se haveria de tornar, graças às atenções e dos muitos mais privilégios concedidos por este e outros monarcas.


Em 1306 D. Dinis concede a Trancoso o direito de mudança da periodicidade anual da sua feira franca, instituída pelo seu pai, D. Afonso III, passando a mensal e com a duração de três dias.


Em 1364, os Judeus de Trancoso apresentam queixa a D. Pedro I sobre as arbitrariedades cometidas contra eles pelos cavaleiros que a visitavam, alojando-se nas suas casas sem pagar. Nesse tempo, o aluguer de casas, durante a feira, rendia tanto como durante o ano inteiro.


A crise de sucessão dinástica iniciada em 1383 coloca Trancoso na primeira linha das decisivas batalhas contra Castela. A 29 de Maio de 1385, trava-se a Batalha de São Marcos em Trancoso, entre as forças Portuguesas e Castelhanas. As primeiras eram constituídas por elementos de Trancoso, Celorico da Beira, Linhares da Beira e Ferreira de Aves, sob o comando do Alcaide Gonçalo Vasques Coutinho. A vitória coube aos nossos guerreiros e tornou-se um sério aviso a D. João I de Castela, pretendente ao trono de Portugal. D. João I, por carta régia de 12 de Janeiro de 1391, confirma os foros, privilégios e liberdades de Trancoso.


Gonçalo Anes (Bandarra), Sapateiro-Profeta de Trancoso

Em 1441, D. Pedro encarrega D. Fernando Vasques Coutinho, seu Alcaide-Mor, de importantes obras no Castelo de Trancoso.


A 1 de Junho de 1510, D. Manuel I, o Venturoso, renova o foral a Trancoso.


O Infante D. Fernando, filho de D. João III, por casamento com D. Guiomar Coutinho, herdeira dos senhorios de Trancoso, é designado Alcaide desta Vila, em 1530. Com a morte do Infante, em 1534, Trancoso passa para os bens da coroa.


Os Judeus de Trancoso sofrem enormes perseguições no ano de 1543, após a ampliação da sua comunidade, em 1481, com a vinda de numerosos refugiados de Castela expulsos pelos reis católicos.


Em 1500 nasce Gonçalo Annes Bandarra, ou Gonçalo Anes, o Bandarra, o famoso sapateiro e profeta. Dedicou-se à divulgação em verso de profecias de cariz messiânico. Tinha um bom conhecimento das Escrituras do Antigo Testamento, do qual fazia as suas próprias interpretações. Faleceu em 1556, encontrando-se sepultado na Igreja de São Pedro.


General William Carr Beresford (1768-1854)

D. João de Mascarenhas é nomeado Alcaide de Trancoso em 1546.


Em 1640, as gentes de Trancoso participam activamente contra os Castelhanos, nas lutas pela Restauração da Independência. Trancoso toma igualmente parte activa na guerra da sucessão Espanhola, em 1704.


Em 1768 a Inquisição proíbe as Trovas do Bandarra e manda picar a inscrição do seu túmulo. Nesse mesmo ano, as tropas Francesas que invadiram Portugal chegam a Trancoso, mas foram, mais tarde, expulsas.


O General Beresford, comandante dos exércitos Anglo-Portugueses que combatem os invasores Franceses, sob a chefia de Masséna, general de Napoleão Bonaparte, estabelece um quartel-general em Trancoso, no ano de 1810, cujo edifício ainda hoje existe. Este oficial Inglês foi, posteriormente, agraciado com o título de Conde de Trancoso.


Em 1820 a maioria da população de Trancoso adere à Revolução Liberal e, em 1838, é extinto o Convento de Santo António dos Frades Franciscanos. No ano de 1842, a Câmara Municipal de Trancoso jura a Carta Constitucional.


É construído no interior do Castelo, em 1850, o Teatro de Santa Bárbara, mas acaba por ser demolido nos anos quarenta do século XX.


Em 9 de Dezembro de 2004, a vila de Trancoso é elevada à categoria de cidade.



A Batalha de Trancoso


A Batalha de Trancoso

A Batalha de Trancoso teve lugar num dos primeiros oito dias do mês de Junho de 1385, entre forças Portuguesas e Castelhanas.


No contexto da crise de 1383-1385 e no final da Primavera de 1385, ao mesmo tempo em que D. João I de Castela invadia o país a Sul pela fronteira de Elvas, forças Castelhanas invadiam a Beira por Almeida, passavam por Trancoso, cujos arrabaldes saquearam, até atingir Viseu, cidade aberta, também na ocasião saqueada e incendiada.


Ao retornarem da incursão com o saque, saiu-lhes ao seu encontro o Alcaide do Castelo de Trancoso, Gonçalo Vasques Coutinho, com as forças do Alcaide do Castelo de Linhares, Martim Vasques da Cunha e as do Alcaide do Castelo de Celorico, João Fernandes Pacheco. Estando os dois primeiros fidalgos desavindos à época, o terceiro promoveu a reconciliação de ambos, e assim concertados, com os respectivos homens de armas e as forças que conseguiram incorporar, fizeram os arranjos para o combate.


Em Junho de 1385 confrontaram-se as forças de Castela e as de Portugal, no alto da Capela de São Marcos, em Trancoso. A sorte das armas sorriu para os nacionais, que, desse modo, recuperaram as posses, alcançando a liberdade dos cativos.


No mês seguinte, uma nova invasão de tropas Castelhanas, sob o comando de D. João I de Castela em pessoa, voltou a cruzar a fronteira por Almeida e, de passagem pelo alto de São Marcos, incediaram a Capela como represália. Passando por Celorico a caminho de Lisboa, essas tropas foram derrotadas na Batalha de Aljubarrota.



Presença Judaica em Trancoso


Leão de Judá, presente na fachada da Casa do Gato Preto (2010)

A presença da comunidade judaica em Trancoso é anterior ao reinado de D. Pedro I. Este monarca concedeu, pela primeira vez, judiaria apartada, em 1364. No século XV eram já cerca de 700 o número de judeus existentes em Trancoso, levando D. João II a conceder autorização para a ampliação da sinagoga.


São cerca de 150 as marcas religiosas judaicas e cristãs-novas presentes em algumas ruas do centro histórico de Trancoso, em particular nas ruas da Alegria, Cavaleiros e Estrela.


A Casa do Gato Preto ou Leão de Judá é, muito provavelmente, o ex-libris do património judaico edificado. Salienta-se igualmente a existência do Poço do Mestre, possível nascente que alimentava o mickvé, e o imóvel n.º 5 A da Praça D. Dinis, casa judaica onde se encontrou um pergaminho com a oração do "SHEMÁ" de Israel.