
Súplica de Inês de Castro, tentando evitar a sua morte e a dos seus filhos
Piódão é uma aldeia serrana de feição rural e acessos difíceis, mas um excelente exemplo do condicionalismo da Natureza sobre o Homem e de como o ser humano se adaptou ao longo dos séculos aos mais inóspitos locais.
Mantém ainda o traçado medieval das ruas, sinuosas e estreitas, adaptando-se ao terreno irregular. Nas paredes das casas e nas lousas que lhes servem de cobertura, o xisto impera por toda a aldeia, pontilhada pelo azul forte das portas e dos frisos das janelas.
Consta que esta uniformidade da cor é originada como consequência do isolamento a que o Piódão esteve sujeita, onde o único estabelecimento da aldeia só vendia tinta de uma cor, tal era a inacessibilidade do povoado. Também se diz que esta cor foi escolhida para dar vida e contraste à aldeia.
As casas são, em geral, compostas por dois pisos. O piso inferior, amplo, é ocupado pela loja, e o superior, com divisórias de madeira, é destinado à habitação. As cozinhas são caracterizadas por uma lareira funda com "tabuão" de madeira à volta.
A aldeia a que actualmente apelidamos de Piódão não é, na verdade, a povoação original.
Na sua origem está um pequeno povoado, provavelmente do século XIII, que começou por se designar "Casas do Piódam", que significa "gente ou o povo que anda a pé", actualmente reduzido a ruínas.
Embora não se saiba muito bem que motivos levaram essa povoação ao abandono do local primitivo, pensa-se que devido ao calor, sofria com as investidas das formigas que devoravam o mel, uma das suas principais riquezas e que, por outro lado, não dispunha de água suficiente para cobrir as necessidades de uma população em expansão.
São Bernardo - Bernardo de Fontaine (1090-1153) foi um abade de Claraval, santo, doutor da Igreja e um monge cisterciense, grande propagador da Ordem de Cister e defensor da Igreja
Por outro lado, é provável que o desejo de diversificação da produção de cereais levasse os habitantes do velho Piódão a se dispersarem pelo vale, dando origem a novos focos populacionais.
No primeiro recenseamento populacional nacional, Piódão aparece agregado à vila de Avô, como "casall do Piódão", existindo apenas dois moradores.
Na sequência da construção da Abadia da Ordem de São Bernardo, Mosteiro de Cister, do qual já não há vestígios, o povoado deslocou-se para a actual localização, na encosta da serra do Açor.
A este Mosteiro poderá estar ligada a antiga invocação a Santa Maria (comum nas abadias Cistercienses) da Igreja Matriz.
As referências a Piódão ao longo dos séculos referem quase sempre o local como refúgio e isolamento do resto do mundo. Diz o povo que Piódão provém de uma carta escrita por um foragido que lá se refugiou da justiça e que ao enviar notícias à família, muito longínqua, descreveu o local como o "pior do mundo".
Na sua origem, a população pode ter alguns fora-da-lei, mas tem também a fidalguia e a abastança dos seus senhores, com direito a tribuna própria na Igreja da Lourosa.
Conta-se que teria sido nesta aldeia que se refugiou o assassino de Inês de Castro, Diogo Lopes Pacheco, apelidos ainda hoje utilizados pela povoação: os Lopes e os Pachecos.
Mais tarde passa a integrar a freguesia de Aldeia das Dez, da qual é desanexado em 1676. Nesse ano é fundada a freguesia do Piódão.
Passa a fazer parte do concelho de Arganil em 24 de Outubro de 1855, quando o concelho de Avô é extinto. Jurisdicionalmente mantém a ligação com o arcebispado de Avô.
Cónego Manuel Fernandes Nogueira, pároco de Piódão, pedagogo e mestre, fundador de um centro de estudos em Piódão
O Cónego Manuel Fernandes Nogueira, em finais do século XIX, funda um Colégio no Piódão, apelidado por muitos como "Seminário", tendo funcionado entre 1886 e 1906, onde juntou muitos jovens, criando um pólo cultural importantíssimo para a região.
Presume-se que foi demolido nos anos 70 do século XX, quando se efectuaram obras para a construção do actual largo da aldeia, restando apenas alguns vestígios.
A actividade agrícola e a pastorícia continuam agora tal como no passado, dominando a forma de vida, a subsistência e a sobrevivência da povoação.
Recuperada, a aldeia vive praticamente do turismo, quando outrora várias vidas ali se cruzaram: pastores, agricultores, mineiros, apicultores, criadores de cavalos e comerciantes.
A emigração levou muitos habitantes da aldeia à procura de melhor vida noutras paragens. Restam hoje pouco mais de uma centena de pessoas e a herança de um património histórico admirável, tanto a nível monumental como etnográfico.
Só na década de 70 do século XX é que o Piódão consegue tornar-se acessível ao resto do mundo com a abertura da estrada até à aldeia, em 1972, e a instalação de energia eléctrica, em 1978.
Até àquela data, a única estrada existente terminava a cerca de 12 Km do Piódão e a distância só podia ser ultrapassada a pé, por caminhos demasiado estreitos, adaptados unicamente à passagem dos carros de bois.
Anexo à Igreja Matriz existiu a Abadia da Ordem de São Bernardo, um Mosteiro da Ordem de Cister, entretanto extinta.
Esta Abadia pertencia aos monges de Cister, ordem religiosa que, reformada por São Bernardo, teve grande influência após a independência do reino, na evangelização dos portugueses e na recuperação de povoações reconquistadas.
Na arquitectura, no ensino, no desenvolvimento agrícola e na cultura em geral, os monges influenciaram a vida das populações.
Os monges brancos de São Bernardo construíram sempre os seus mosteiros em estreitos vales – "benedictus montes", "Bernardus valles" – e Piódão era o local perfeito.
Recorte de uma foto do Piódão, de Eduardo Gageiro, na qual é visível o Colégio/Seminário em frente à Igreja
O Cónego Manuel Fernandes Nogueira (nasceu a 07 de Abril de 1816, em Loriga, Seia - faleceu a 28 de Fevereiro de 1944, em Coimbra), foi pároco de Piódão, pedagogo e mestre, fundador do centro de estudos/colégio onde leccionava sozinho, pelo menos no início. Foi ali colocado em 1885 quando tinha apenas 25 anos.
A ele se ficou a dever a fundação do "seminário/colégio" em 1886, onde preparava os jovens para os estudos universitários e, mais frequentemente, para a vida eclesiástica.
Sabendo como era difícil a tantos rapazes das Beiras seguir os estudos superiores nos Seminários e na Universidade e sentindo-se capaz e habilitado para ensinar as cadeiras exigidas para o Seminário e para outros estabelecimentos de ensino superior, lança-se ao trabalho.
Tinha como objectivo preparar candidatos para a ordenação presbiteral, uma espécie de Seminário Menor, e contribuir para a elevação cultural da Beira serrana. Todavia, foram poucos os que receberam a ordenação presbiteral.
Durante vinte anos, de 1886 a 1906, passaram por este colégio cerca de duzentos alunos cujas raízes estão nos quinze concelhos das Beiras e que, a maior parte, seguiu estudos superiores, levando longe o nome do fundador do colégio e do seu único professor.
Em 1907 foi colocado e nomeado director espiritual no Seminário de Coimbra e, em 1914, foi nomeado Arcipreste do distrito eclesiático de Coimbra. Em 1922 foi nomeado cónego da Sé. Acumulou ainda a paróquia de Moinhos, em Miranda do Corvo. Regressou pela última vez à sua terra natal em 19 de Setembro de 1941, onde recebeu da população uma singela e justa homenagem.
A sua meritória acção, actualmente homenageado por uma estátua no largo da aldeia, incentivou o desenvolvimento da agricultura e da silvicultura, criando na população laços estreitos de vida comunitária, através da participação activa no desenvolvimento económico da freguesia.
Com o encerramento do Colégio retoma-se o antigo esquecimento, interrompido a breves espaços pelos esforços isolados da sua população.